Buscando minhas forças

Segue o relato de Thayane Witte, uma seguidora da página. Avisos para menções de um relacionamento abusivo, perseguição e ameaças de suicídio.


 

Eu descobri que precisava do feminismo quando percebi que sofria por causa de um relacionamento abusivo.

Ele era o cara bonito, super inteligente e rejeitado pela sociedade. Incompreendido, depressivo, dono da razão. Era esnobe, egocêntrico e orgulhoso, mas aos meus olhos soava como um ser que merecia ser amado (eu chamo isso de complexo da bela e a fera) e eu era a moça que poderia alcançar-lhe o coração.

Nossa amizade começou via MSN e tinha mais de um ano quando ele começou a desenvolver um interesse por mim. Terminei com um relacionamento porque me sentia infeliz e logo veio ele, meu melhor amigo, para ajudar a curar minhas feridas. Saímos uma vez e as coisas engancharam, embora não oficialmente.

Ele controlava meu tempo, ainda que a distância. Se eu não mandasse uma mensagem sequer durante o dia, ele começava a me ligar e dizer que se eu não entrasse em contato, iria me matar ou matar minha família. Quando a gente se via, ele sempre me machucava. Fosse segurando meus pulsos com muita força, fosse mordendo minha pele feito um animal (pode parecer loucura, mas ele fazia isso, dava mordidas fortes contra minha vontade e chupões que pareciam hematomas de uma surra. Era desconfortável e doía muito). Ficamos um ano juntos e eu dei um pé na bunda assim que tive coragem. Não chorei, nem sequer o amava de verdade, embora uma parte maluca de mim gostasse dele. Uma parte que sempre acreditava quando ele me dizia que da próxima seria diferente, que não era de propósito e que só eu era capaz de amá-lo, entende-lo, fazê-lo sentir-se um ser humano normal.

Mas o que eu não sabia era que estava me relacionando com um sociopata.

Depois que eu dei um basta, ele ligou o Skype e disse que, se eu não ficasse com ele, se mataria na minha frente e a culpa seria minha. Vi enquanto ele cortava os pulsos (superficialmente, ele só queria me assustar), enquanto tomava remédios e via-o chorando diante de mim. Eu tinha saído a alguns anos de uma crise por causa de um namorado que havia falecido e ainda estava em choque, ainda estava abalada. Fiquei 5 horas sem saber se ele tinha morrido, 5 horas pensando que eu era um monstro.

Mas ele não morreu, claro. E, quando voltou, as coisas começaram a ficar piores. Ele ligava pra minha casa 24 horas por dia e usava a internet para não ter seu ID reconhecido. Fui na polícia, mas eles não conseguiram encontrá-lo, disseram-me que não havia nada que pudesse ser feito além de desativar meu telefone de casa e trocar todos os números de celular.

Mandava mensagens pra toda a minha família, chamava-me de palavrões e dizia que apareceria na porta da minha casa para me matar. Pior de tudo foi que ele tinha “gravado” um vídeo meu sem blusa e disse que se eu fosse à polícia ele postaria em todos os grupos que eu fazia parte, que todos saberiam a “puta mentirosa” que eu era.

Eu tinha medo de encontrá-lo na rua, na escola, no trabalho. Ele lutava kung fu e tinha uma arma em casa, arma essa que ele fez questão de me mostrar. Além de ser 6 anos mais velho que eu, fazia questão de me lembrar o quão infantil, feia, esquisita, antissocial e fracassada eu era. Saía com meninas mais bonitas e vinha dizer o quanto elas eram melhores do que eu. Fazia questão de me lembrar do que eu era e dizia que eu jamais seria feliz com ninguém. Que eu não merecia a felicidade – nem o amor. Eu não passava de uma putinha que fingia ser “uma menina direita”.

Eu tinha medo de sair de casa. Via-o em cada esquina, mesmo que ele não estivesse lá. Desenvolvi uma fobia com telefones, sempre que algum tocava, eu começava a suar frio, tremer e sentir que iria desmaiar. Não conseguia sentar do lado de homens nos ônibus e nem ficar sozinha na rua. Ia e voltava como se fosse um zumbi. Chorava em silêncio, não queria que minha mãe soubesse que ele me afetava assim, não queria que ninguém soubesse.

Ele era irmão de uma política e tinha influências por ter trabalhado na polícia por alguns anos, mas eu não era burra. Um amigo, sobrinho de um governador, disse que se ele fizesse alguma coisa, iria me ajudar. Arrumei todas as armas que podia: amigos, provas, influências. Então contei pra ele tudo que podia fazer se ele não sumisse da minha vida e não me encolhi num canto escuro para chorar, como sempre fazia.

Foi um ano e meio de tortura, até que em uma das ligações dele (que eu não atendia tinha um ano), arranquei o telefone da mão da minha mãe e, num ato de poder que eu nunca tive, disse que sonhava com o dia que ele cruzasse meu caminho para que, finalmente, eu tivesse a oportunidade de enfiar, eu mesma, uma faca em seu peito. Disse que, se ele me ligasse mais uma vez que fosse, iria na polícia com todas as imagens, prints de ameaças, mensagens salvas e conversas gravadas e o meteria na prisão sem chance de sair de lá. Eu estava cansada de sentir medo, eu estava cansada de chorar e sentir que passava pelos dias como se não sentisse mais que estava viva.

Foi então que eu entendi a minha força. Foi então que eu encontrei apoio no feminismo. Eu não tinha que ficar calada, eu não precisava ter medo. Todas aquelas pessoas que me julgaram, que acharam que tinham o direito de me acusar, de dizer que a culpa era minha por ter dado bola para um cara assim, por ter me “mostrado” assim, todas elas não eram dignas da minha amizade e apresso. Mudei meus amigos, viajei, mudei minha forma de enxergar o mundo. Eu não tinha que me calar, eu não tinha que aceitar o que ele tinha imposto pra mim. Usei minha paixão pela leitura e pela escrita, que ele disse que me fariam afundar cada vez mais na solidão e na insignificância, e transformei em um foco. Tornei-me escritora, ganhei prêmios, sonhei alto. Descobri-me linda, divertida, poderosa. Não mudei, eu me moldei. Usei aquela pessoa que ele profetizou que eu nunca seria, e fui.

Hoje, através dos meus textos, ajudo outras mulheres que vivem ou viveram uma situação parecida com a minha. Hoje eu grito, hoje eu amo, hoje eu luto. E lutar me faz feliz. Não se cale também, nós estamos aqui para te fortalecer. Você não está sozinha e isso que parece amor, não é. Amor não bate, não fere, não mente. Amor não machuca, não te rebaixa, não te torna infeliz. Amor é quando você descobre que a imagem refletida no espelho é quem você quer ser. Empodere-se.

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